Apelos da Semana de Oração pela Unidade Cristã

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que iniciou dia 17 e termina dia 24 de maio de 2026, está acontecendo na Grande Vitória. Cariacica, Vila Velha e Vitória sediam os eventos de oração, oportunizando a participação de todos.

Nos próximos dias mais duas celebrações acontecem, dia 21 na paróquia São José em Maruípe às 19h30 e no dia 23 na Igreja Presbiteriana em Vila Velha às 18h.

A Semana de Oração acontece todos os anos entre as Solenidades da Ascensão e Pentecostes: “Entre as Solenidades da Ascensão do Senhor e de Pentecostes, será celebrada a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (SOUC), um dos momentos mais significativos do ano para a dimensão Ecumênica da Igreja. As celebrações terão como inspiração bíblica o versículo 4 do quarto capítulo da carta de São Paulo aos Efésios: “Vocês formam um só corpo e um só espírito, do mesmo modo que a esperança para a qual foram chamados é uma só” (Ef 4, 4), diz o texto publicado pela CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Ontem, 19 de maio a Celebração aconteceu no Albergue Martim Lutero em Tabuazeiro, Vitória. Pe. Kelder Brandão, vigário episcopal para a ação social, política e ecumênica, proferiu a homilia. Confira:

Semana de Oração pela Unidade Cristã 2026

“Em toda humildade e mansidão, com paciência, suportai-vos uns aos outros no amor” (Ef 4,2).

Nessa noite, conduzidos e orientados pela Ação Diaconal Ecumênica da Grande Maruípe, reunimo-nos neste lugar de acolhimento e cuidado com a vida, que é o Albergue Martim Lutero, para elevar ao nosso bondoso Deus, fonte da vida e da salvação que recebemos em Cristo, uma prece pela unidade cristã, pela nossa unidade.

A divisão interna e externa das igrejas cristãs é um escândalo, um pecado que fere o coração de Deus e contraria a doutrina que recebemos dos apóstolos e que temos a obrigação de proteger, praticar e transmitir às próximas gerações.

A fé cristã é testemunhal; tem uma dimensão pessoal e outra comunitária. Essas dimensões da fé que professamos devem orientar nosso testemunho, inseridos na realidade, relacionando-nos com a pluralidade e a multiplicidade da vida que povoa o mundo.

Tanto a unidade quanto a diversidade são dons de Deus para a humanidade, para as Igrejas e, especialmente, para cada um de nós. Deus é Uno e Trino: um ser de comunhão e relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, de onde emana a vida, unido e movido pelo amor. E nós fomos feitos à sua imagem e semelhança. Somos um, mas somos diversos, e necessitamos uns dos outros para existirmos.

A fé cristã é única e diversa. Estamos espalhados pelo mundo inteiro. Relacionamo-nos com Deus de maneiras diferentes, mas formamos um só corpo, o Corpo de Cristo. A cada ano, durante a Semana de Oração pela Unidade Cristã, temos a oportunidade de celebrar a nossa unidade na diversidade, como estamos fazendo hoje, ao nos reunirmos neste espaço de acolhimento e cuidado que, ao longo dos anos, tem sido uma extensão de nossas igrejas, desenvolvendo inúmeras atividades ecumênicas, pastorais e celebrativas.

Todos os que estamos aqui devemos nos sentir parte e responsáveis pelo Albergue Martim Lutero. Esse espaço tem sido um sinal visível do testemunho cristão que todos nós devemos dar.

Ao longo de décadas, esta casa, que é uma casa samaritana, acolhe milhares de pessoas que se deslocam do interior para se tratar contra o câncer em Vitória, independentemente da religião ou da fé que professam. Ela é fruto da consciência dos membros de uma Igreja cristã que não ficaram indiferentes diante das dificuldades e sofrimentos que muitas pessoas enfrentam nas comunidades do interior.

Um dos grandes pecados, ou males, que a humanidade enfrenta é a indiferença diante do sofrimento e da necessidade do outro. A indiferença nos desumaniza, naturaliza o sofrimento alheio e permite que o mal floresça ao nosso redor e dentro de nós, como o câncer que vai se enraizando nos órgãos até acabar com qualquer possibilidade de vida no corpo.

Conforme acabamos de ouvir no Evangelho, na parábola do samaritano que sente compaixão pelo homem caído à beira do caminho, Jesus ensina que ninguém deve ser indiferente ao sofrimento alheio.

Ele contou essa parábola para responder a um doutor da lei que, para testá-lo, perguntou o que devia fazer para ganhar a vida eterna. O legista sabia a resposta para a pergunta que fez, mas queria uma justificativa para continuar vivendo uma fé intimista, individualista, legalista, moralista, preconceituosa, excludente e desumana, que impunha às pessoas simples e empobrecidas fardos impossíveis de serem carregados, afastando-as de Deus. Uma fé que não tem nenhum comprometimento com a vida e a dignidade das pessoas, que trai os fundamentos do Evangelho e os princípios fundantes da tradição cristã, transmitidos pelos pais e mães da nossa fé.

Nós somos testemunhas de que muitos grupos religiosos, dentro e fora de nossas igrejas, têm se insurgido para retomar esse tipo de vivência, causando discórdias e divisões, vinculados a projetos políticos e ideológicos de dominação e poder, que negam os direitos dos mais vulnerabilizados, excluídos e minoritários socialmente.

Ao longo dos anos, vimos o ressurgimento das execuções sumárias em nosso meio. Centenas de jovens foram executados por agentes de segurança sob o pretexto de combate ao tráfico de drogas e de armas. Essa matança é sempre justificada e acompanhada pelos índices estatísticos de redução de homicídios no Estado. Mas eles nunca falam do aumento do número de pessoas mortas em conflito com a polícia e tampouco falam do número de pessoas desaparecidas.

Por que omitem essas informações? Somente no ano passado foi comunicado o desaparecimento de quase duas mil e quinhentas pessoas. E aquelas pessoas que não tinham ninguém para fazer esse comunicado? Para onde foram? Qual é o seu paradeiro?

Agora, estamos acompanhando a matança em série de pessoas em situação de rua. Homens com treinamento tático, armados, que prendem, torturam e matam pessoas em situação de rua, de noite ou de dia, ou membros do sistema prisional em regime semiaberto ou em liberdade provisória. Segundo a imprensa, de 2021 a março de 2026, foram assassinadas mais de 300 pessoas ligadas ao sistema prisional.

Isso significa que o crime organizado se manteve presente nas instituições políticas capixabas e, agora, sente-se muito confortável para agir em plena luz do dia, porque sabe que tem proteção institucional e o apoio de parte significativa da sociedade para atuar, inclusive de muitos que se dizem cristãos.

Qual será a resposta de nossas Igrejas a essa situação? Ficaremos indiferentes, fingindo que não estamos vendo, como fizeram o levita e o sacerdote da parábola que Jesus contou, ou denunciaremos, como foi feito no final da década de 1990, quando os membros do CONIC atuaram com firmeza, denunciando e enfrentando a obscenidade das relações promíscuas do crime organizado com as instituições políticas e os poderes capixabas?

A compaixão e o amor são o remédio contra o mal da indiferença. Como ouvimos do profeta Zacarias, devemos praticar o amor e a misericórdia com o nosso irmão, independentemente de quem ele seja. Não podemos ser coniventes com a opressão das minorias sociais, que, na época do profeta, eram a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre. Não podemos tramar o mal contra ninguém em nosso coração, nem mesmo contra aqueles que nos odeiam e nos perseguem.

Pelo contrário, nós, cristãos, devemos, com toda humildade, mansidão e paciência, suportar-nos uns aos outros no amor e, assim, suportar toda a humanidade, como Deus nos suporta, para que o nosso testemunho seja autêntico e fiel a Jesus Cristo.

Que a Semana de Oração pela Unidade Cristã deste ano nos torne mais humanos e conscientes de nossa missão no mundo.

PAZ E PÃO - Rede de ações contra a fome

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